quarta-feira, 23 de março de 2011

Narrando uma morte




Sinto-me morrer, aos poucos morrer, sinto deteriorar célula por célular que compõe meu corpo, tenho indícios de perda de alguns sentidos, vontade de chorar sem ter lágrimas, gritar sem ter voz, sentir sem tato ter, e de olhar o que meus olhos só vêem fechados. Estou me acabada, gradativamente acabada, é lento, é lento demais para agüentar-me até o final, e é desesperador saber que agüentarei.
            Meus órgãos já não me respondem mais, não tenho mais pulmões, os cigarros me roubaram os dois; não tenho mais peito, a força que fazia para torci era tamanha que me fez os destruir; minha voz foi abolida, de rouca passou para inaudível; meu fígado foi desativado com o último doce gole de um vinho barato, que custou de mim um órgão vital; meu coração que antes dera algumas paradas para descansar, agora descansa de vez, acaba de parar, pois acabo de escutar o ensurdecedor som do silêncio, nada se move ou se escuta dentro de mim, a não ser o murmúrio de meu cérebro ainda vivo, uma crueldade imensurável, pois não me houveram desmaios, só encontraram-me com um papel ao lado de alguns cigarros e o vinho barato ao redor de algumas rosas, e um pequeno e já surrado lápis, o favorito, e desde então ainda estou em plena consciência, consciente, ciente que só restou-me meu cérebro que não me para de funcionar e não deixa-me transcender, já era para mim em outro plano estar, senão fosse à virilidade de meu cérebro, que luta sem cessar. Contudo, falta pouco, creio que aproximadamente cinco exaustivos minutos para adentrar-me nesta estrangeira viagem, com destino ao desconhecido, e com parada no inimaginável, cinco eternos minutos, mais não precisamente cinco, pois a morte é inesperada, chega como um raio, que mal se  acende e já se apaga, e no calor de minha última dor, dar-me-ei o luxo de dizer... Adeus, e sem mais tempo para viver, morri.

Roberta Laíne.

2 comentários:

  1. Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe.
    (William Shakespeare).
    Mto lagal mesmo.S/ palavras! Robertita, vc é genial!

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  2. oti,ainda não tinha visto essa citação de Shakespeare, magnífica '-' meu leitor de manuscritos <3

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