domingo, 29 de março de 2015

Caros leitores, se é que tenho leitores, não importa, eis que vim para lhes contar uma história, estritamente de um palhaço e uma bailarina; entretanto, você já deve ter lido por aí muitas histórias sobre palhaços, ou, sobre bailarinas, ou talvez até mesmo sobre palhaços e bailarinas na mesma frase, eu particularmente nunca li histórias sobre palhaços e bailarinas, mas deva ter, espero que tenha, não quero o título de ineditismo cá nessa história, na verdade, não quero ineditismo em nada, quero particularidades, busco mostrar esse meu mar tormentoso de letras sob minha pobre perspectiva, mas sem delongas, pois já devo está deixando a história que ainda nem começou, chata!
Pois bem, certa vez um palhaço que chamarei de R, saiu ao término de mais uma de suas apresentações do circo "Dreams come true" triste como de costume, e um tanto quanto tonto com tantos risos em seus ouvidos e nenhum em seus lábios... O palhaço, fora apenas para mais uma de suas voltas vazias pelos becos da pequena cidade onde o circo se apresentava; R andava sem destino a procura de nada, só queria mesmo esvaziar-se daquele vazio que o enchia, e, passando pelas esquinas da cidade, ouviu um som suave em pranto morno sair pelas enormes frestas de uma janela quebrada, aproximou-se do som, mas não conseguiu identificá-lo com nenhum armazenado na sua biblioteca auditiva que trazia na cabeça, então deduziu que poderia ser um clássico, quem sabe Beethoven ou Chopin, nomes que ouviu sair da boca do responsável pelo sistema de som do circo, que certa vez mencionou tais nomes para iniciar ou impactar o início de certa apresentação de uma das contorcionistas. Mas R mesmo não conhecia esses nomes não, nem nunca escutara, e se escutara, não sabia que eles eram eles, e de fato, o som que saiu pela degradação daquela velha janela eram preludes de Chopin, saídos de um baldwin muito bem tocado. Pela janela, o palhaço vislumbrou uma bailarina que ora rodopiava rapidamente ora lentamente conforme o apertar das teclas do piano. R ficara cego de tanto brilho que a bailarina emitira ao fazer tais movimentos, e como velho e bom palhaço acabou por atrapalhar a apresentação, quando se recostou em uma parte da janela que caiu estardalhaçando o restante da pouca vidraça. A bailarina e o piano pararam de súbito os movimentos, enquanto R olhava assustado para si e para a bailarina, não sabendo o que dizer e/ou expressar, então resolveu sair correndo dali em busca de um beco escuro que lhe desse saída, e assim o fez, em passos apressados quase saltos sumiu do lugar e chegou a um beco ao qual notara que um leve corte devido a caída da vidraça, lhe fazia escorrer um fino sangue entre os dedos da mão, sentou-se no chão do beco e amarrou-lhe na mão um trapo encarochado que guardava no bolso. E ali, pôs-se a lamentar-se pelo atrapalho que fizera, mas lembrou-se também dos movimentos da bailarina e começou a sorrir sozinho para solidão. Agora já não mais estava tonto com os sorrisos da plateia em seu par de ouvidos e nenhum em seus lábios, agora seus ouvidos nada escutavam o que os lábios sorriam... De repente, uma sombra fez a penumbra que se encontrava ficar mais intensa, ao erguer os olhos, o palhaço vira a bailarina que em passos suaves sentara-se ao seu lado, dizendo:

― Oi? Meu nome é B e o seu?

Atordoado, o palhaço R não sabia o que responder, muito menos acreditava na presença da bailarina sentada ao seu lado, e no meio do turbilhão de pensamentos, se questionou por que seu nome seria B? Será que de bailarina? Depois lembrou-se do seu, que nem monossilábico era, pertencia apenas a uma das últimas letras do alfabeto, R.

― Prazer, meu nome é R, sou palhaço e acho que você bem percebeu meu ofício depois do que fiz com a janela...

A bailarina sorriu e disse:

― Na verdade, eu pensei que você fosse algum bandido ou forasteiro que errara de janela.

O palhaço R sorriu verdadeiramente pela segunda vez naquela mesma noite, e olhara para a bailarina com uma ternura que jamais sonhava em realizar na vida real. Ficaram os dois ali, sentados, conversando sobre seus mundos, e rindo das mais incríveis giro-palhaçadas. Será que preciso dizer que ali nascera um amor? Assim conforme ia nascendo o dia e ambos sentados um de palhaço e outro de bailarina... Ao perceberem o nascer o dia, assustaram-se com o que houve desde o estardalhaçar do vidro, entreolharam-se e perceberam que era hora da partida, um a um trailer do circo outra a casa da tia por detrás do teatro das artes. A despedida é a visitante mais inconveniente que existe. E então rumaram cada um para o seu lado, mas o palhaço R não era o mesmo muito menos a bailarina B da mesma forma.
Na noite que sucedera o acontecido, depois de um espetáculo, o palhaço agora saía com rumo, procurava algo, era tipo quase tudo, e ia sorrindo pelas ruas vazias e becos da cidade, voltou para o lugar onde quebrara a vidraça da janela que por sinal muito lhe tinha servido, pois via com mais amplitude a bailarina B em seus ensaios. Ficara ali parado, quase sem respirar e sorridente esperando que B notasse sua presença o que não demorara muito, pois logo em meio a um rodopio acenou-lhe com a mão direita. Após o término ambos se uniram para uma caminhada, na verdade não era bem uma caminhada, e não venha me dizer que você estava esperando um encontro, um jantar em algum restaurante ou coisa do tipo, pois se estava, sua decepção pousa agora, pois ambos marcaram de ir para o beco, o mesmo beco e ficarem sentados no mesmo lugar que na noite anterior e assim o fizeram, entretanto mal sentaram e o palhaço R dissera de supetão:

― Quer namorar comigo?

A bailarina nunca esperara aquela pergunta tão frequente por aí afora e agora sendo perguntada ali, para si, de supetão, como se a NASA tivesse acabado de fazer uma contagem regressiva e lançasse mais um foguete ao espaço. Atônita a bailarina não disse sim nem não, mas disse que a espera iria lhe trazer uma resposta. O palhaço não desanimara, ficaram ali mais uma noite sentados, rindo de inesperadas e surpreendentes giro-palhaçadas. Até que no quarto dia a bailarina virou-se para ele e dissera:
           
― Sim, eu já tenho uma resposta para seu pedido.

O palhaço assustado engoliu em seco e perguntou temerosamente qual seria, e ela disse:

― Já respondi seu pedido, quando pronunciei a primeira palavra ao dizer que tinha uma resposta.

Suado de alegria, R lembrara-se como não poderia esquecer que a primeira palavra pronunciada fora Sim, e sorriu como se o mundo estivesse aplaudindo-o, levantou-a e em gestos cavalheirescos dançaram como se fogos de artifícios estivessem estralando o céu daquela noite, depois do beijo em que lhe dera.
Não vou narrar sobre os fatos felizes que se sucederam depois dos fogos de artifícios, mas posso afirmar-lhes que desde aquele dia, B rodopiava todas as noites para R , e R engatilhava os mais lindos sorrisos... E assim viveram o resto de suas vidas em giro-palhaçadas. 

- roberta laíne.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Uns vêem o sol, 
eu vejo a Lua, 
até de dia .. 

-roberta laíne.

terça-feira, 17 de março de 2015

Chorar, é apenas pôr para fora o que o corpo rejeita ..

- roberta laíne.

segunda-feira, 16 de março de 2015

No momento, há várias coisas espalhadas em meu quarto: um livro de contos de Milton Hatoum (A cidade ilhada) que acabei de ler para meu tcc, em cima dele o próximo (A menina sem palavra) de Mia Couto, possivelmente também para meu tcc, e abaixo dos dois o meu livro guia, linguagens e códigos de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães. E confesso que, para onde vou levo esse livro, minha bíblia. Nem precisa se indagar o porquê - nele, habita a literatura e a linguística; tudo o que eu preciso para sobreviver. E outros livros espalhados pelo quarto bem como meus remédios e as letras de uns poemas que nunca me dei o trabalho de terminar, uma bagunça de letras que me fez lembrar que, ao sair de uma sala e tentar uma maneira mais fácil de mostrar para meus alunos o lexa-prem, característica do paralelismo presente nas cantigas de amigo, fiquei atordoada, irritada com aquelas estrofes narcisistas, e aquelas repetições vazias e estruturantes dos poemas. Sai me questionando em voz alta: tem coisa mais difícil que ensinar literatura? Um dos funcionários da instituição escutou-me e respondeu: que tal uma cirurgia no coração? Ou quem sabe no cérebro? Confesso que assustei-me com a resposta, mas logo irritei-me e disse: bem, depende. Cada uma tem suas dificuldades, e são cortes vitais; mas ele argumentou com os olhos algo calado e cínico do tipo a medicina é mais difícil que tuas letras e literatura e eu mais cinicamente respondi, um corte no coração pode significar muito, a vida por exemplo, mas um corte errado nas palavras além de significar a vida, pode para sempre danificar a alma... Sorri, e saí dizendo: lexa-prem, trovadorismo, ondas do mar de Vigo, as palavras tem poder ...

-roberta laíne.

domingo, 15 de março de 2015

Às vezes, sinto umas saudades esquisitas, meio que do nada - que sufoca o peito, amarra a alma e dá vontade de sair correndo urgente para um hospital, contar tudo para algum médico da emergência e pedir um medicamento, uma receita ou um tratamento, ao menos um paliativo para aquele momento em que você está tendo tremores, sufocamento no peito, dor no corpo inteiro, e medo de morrer, morrer de medo, morrer de saudade, morrer ali sem ter matado quem estava te matando, morrer de saudade. 

-roberta laíne.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Não vivo noites fodas,
Vivo noites fodidas ...

-roberta laíne.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Infinity - the xx

Estou vivendo a felicidade em seu pleno contorno, com curvas castanhas e em preto claro como luz de sol de praia; parece mentira, mas a verossimilhança se encontra aqui, bem aqui, nestas palavras, Como quando olho para cima e só enxergo embarcações a flutuar no azul do céu mar, ou como quando olho para baixo e vejo aviões decolando suavemente ao chão...

- roberta laíne.