domingo, 15 de abril de 2018

Quando eu era criança descobri - por um grande acaso - na sala de casa, uma caixa preta que era ligada a uma antena, ao qual era ligada a inúmeros satélites espalhados pelo espaço, chamavam-na de televisão, ainda chamam-na, na verdade. Sempre que alguém estava ocupado demais para prestar atenção a mim, colocavam-me de frente com aquele planeta esquisito que me chamava atenção. Aí fui crescendo, e fui tentando entender o planeta. Ficava assistindo, e simultaneamente procurando por detrás dela, eu realmente não entendia como aquelas pessoas cabiam ali dentro, no meu pensamento se elas estavam passando por aquela tela era por que moravam ali, no interior daquela caixa preta. Por várias vezes olhei ao redor dela, sondava minuciosamente como eles cabiam ali. Aí fui crescendo, cresci e entendi a televisão, então passei a desconfiar de outra coisa, passava horas olhando para o céu e procurando em seus arredores, procurando um limite ou uma janela, uma porta, uma brecha, uma fissura, foi quando lembrei da televisão, e comecei a sorrir por saber que algum dia eu também irei descobrir o que realmente tem por detrás do céu, obviamente acredito em Deus, mas isso não tem a ver com fé, tem a ver com ciência, tem a ver com a descoberta de onde realmente moram os atores dessa peça teatral chamada vida. Então percebi que essa descoberta tem tudo a ver comigo, tem tudo a ver com você.

Para Jackson Oswaldo

Roberta L.

sábado, 10 de março de 2018

Escrevo porque vivo engasgada, é um nó na garganta, uma falta de ar, uma ânsia de vomitar palavras, parece-me que a todo momento eu preciso dizer, como uma espécie de prece contínua e fiel, parece-me uma espécie de fotossíntese. Aí, quando eu escrevo, quando eu enfim vomito, sinto aquele alívio de quem escapou da morte, como se eu me rasgasse e me costurasse. Parece-me que quando enfim despejo as palavras, o meu corpo se aquieta em uma prece derradeira, como se eu pudesse morrer tão tranquila que nem sentiria a ceifada da morte! É aí que me sinto viva, é aí que sinto uma paz danada de morrer. Parece-me mesmo que escrever é mais morte do que vida.

-Roberta Laíne.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Não escrevo para ninguém. Escrevo para mim, por mim, devido a mim, para me satisfazer. São excessos, sobras, faltas, puras faltas! Tão minhas como de mais ninguém!

- Roberta Laíne.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Parecia que iria cair uma tempestade em mim, eu estava nublada, fria, escura. Tão carregada, coberta, fechada, tempestuosa. Eu já começava a derramar os primeiros pingos suaves, embalando um vento singelo de final de outono, aí eu trovejei, eu clareei e logo apaguei. Eu começava a escorrer por esgotos, entre plantas e telhas, eu fazia as pessoas correr para se esconder de mim; pessoas de todo tipo, de todo jeito, com capas, guarda-chuvas, enrolando o jornal. Todas tinham algo em comum: encender-se de mim. E eu tão sem jeito caía sem parar, pedia desculpas, mas ninguém me ouvia, chamava o vento pra me empurrar para longe de todos, mas eu logo voltava a molhar. Eu lamentava, então começava a chorar e virava tempestade, eu desaguava nas pessoas, eu molhava a todos. Eu lamentava por não saber ser como o sol, mesmo sendo tão transparente e essencial, não era eu quem brilhava, tudo o que eu fazia era continuar afastando as pessoas para longe de mim. Não que eu tenha inveja do sol, não que eu não tenha querido ter nascido chuva, eu só queria que as pessoas parassem de fugir de mim, de procurar abrigo quando eu fosse tempestade, de se enxugar quando tudo o que eu fazia era molhar. Eu só queria que as pessoas dançassem comigo, em mim. Nunca quis fazer parte das noites tristes e nostálgicas das pessoas, nunca quis embalar canções tristes. Eu só queria continuar sendo chuva, continuar molhando, continuar clareando e apagando, e fazer sorrir quem se enxarca em mim.

- Roberta Laíne.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Essa data não me sai da cabeça, 12 de setembro de 1972! Mas por que? Qual o motivo desse dia? Vinte anos antes do meu nascimento! Por que estou lembrando de uma data ao qual nem era nascida? Fiz pesquisa na internet para saber se algo de importante acontecia nesse dia e tudo que encontrei foram ementas, decretos, e coisas a respeito de política, por exemplo: "DECRETO Nº 2.618 DE 12 DE SETEMBRO DE 1972. EMENTA: Autoriza o Presidente da Republica a conceder oito mezes de licença com dous terços de seus vencimentos ao bacharel Djalma Mendonça, juiz substituto da comarca do Alto Juruá, no Territorio do Acre, para tratamento de saude, onde julgar conveniente." No entanto, essas informações não fazem sentido nenhum sentido a mim. Quem foi Djalma Mendonça? De que doença ele estava acometido para ter a liberação do Presidente da República para se afastar de seu cargo? Qual a relevância disso para a minha vida? Comecei então um emaranhado de pensamentos me questionando quantas pessoas nasceram nesse dia, quantas morreram, quantas sobreviveram, quantas continuaram a vagar e existir por existir, quantas choraram por amor ou pela ausência dele, quantos casais tiveram que se despedir, pois um deles precisava ir para alguma viagem,  de negócios, à trabalho, por mentiras, por verdades, quantos amantes inteiramente apaixonados encontraram-se as escuras em quartos baratos e tiveram uma noite de amor que parecia eterna, quantas poesias foram escritas, quantas foram rasgadas para nunca mais voltar, para nunca serem lidas. Eu não quero mais pensar nessa data, eu não quero mais deitar e ter como abajur o letreiro gigante 12 DE SETEMBRO DE 1972. Por isso, estou escrevendo sobre o que eu não sei, estou expondo esse dia para que ele possa seguir seu curso, estou aqui escrevendo coisas tão vazias quanto esse dia 14 de Dezembro de 2017, estou aqui por uma data passada, que talvez tenha representado inúmeras manifestações para quem a viveu, pode ser as letras fúnebres de uma lápide de alguém que teve sua vida desligada em 12 de Setembro, ou, talvez, as letras apertadas de um diploma datilografado em 12 de Setembro. Talvez vida, talvez morte, talvez isso tudo se encerre aqui, nesse amontoado de palavra que vos falo, ou quem sabe não, quem sabe o letreiro volte a me perturbar quando eu deitar e as luzes disserem mais uma vez: 12 DE SETEMBRO DE 1972.

R.L

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Onde quer que você esteja eu quero que saibas que continuo pensando em você. 
Continuo te achando a mulher mais linda que já conheci.
Você está totalmente viva em mim.

Estou totalmente feita de passado, feita de alguém que nunca mais poderá voltar.
Todos os dias me ponho na árdua tarefa de entender, mas a cada dia que passa tudo o que consigo visualizar é que me torno uma ilha, vazia, noite, fria, vivendo de lembranças suas, vivendo de restos de você.

Eu te amo, Cássia.

- Roberta L.