domingo, 21 de dezembro de 2014

Seguia para mais uma de minhas noites vazias, quando, ao passar pelo trajeto de sempre, vi uma moça de pele clara e cabelos ondulados, pigarreando algumas frases tortas que eu não soube decifrar, cambaleando naquele beco sem saída; passei direto, presumi logo ser umas doses de álcool de mais uma dessas jovens que se enchem de nada, e saem daquelas casas de festas que nunca me atraíram os olhos e só as vi na tv. Entretanto, uma força de sabe-se lá qual dimensão me fez parar meus passos rasos, respirar errado e voltar, a moça continuava ali, na mesma posição, não me aproximei muito para pergunta-lhe o que tinha, balbuciou algumas coisas esquisitas que pela segunda vez eu não soube decifrar, decidi então chegar mais perto, e indagar-lhe:
― moça? moça?
― o que você tem?
Um vento frio cortou-me a blusa de algodão barato que havia comprado numa dessas lojas de esquina, quando ela olhou-me de uma maneira que nunca, nunca irei conseguir descrever, e, o mais próximo que posso conseguir, é, que seus olhos, eram olhos de segunda guerra mundial... Um holocausto! Todo e inteiramente saindo de sua retina, me fazendo engolir em seco e sentir uma sensação estranha que geralmente os animais sente mais que os seres humanos: afeto.
Na hora isso me fez rondar pela minha biblioteca psicológica e lembrar de uma das minhas frases favoritas de Antoine Saint-Exúpery: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Não sei o motivo, talvez seja por escrever alguns versos surdos a alguns anos, ou pela solidão que já me era uma melhor amiga, então, imaginei se alguma coisa havia descativado aquela moça, que após baixar seus olhos de segunda guerra mundial começou a vomitar e caiu ao chão. Corri a ampará-la quando enfim entendi o que saia de seus lábios,


Um recorte: [não pretendo dizer agora porque até mesmo eu me surpreendi],


Recostei-a naquela parede de tijolos imundo do beco sem saída e pedi para contar-me como isso fora acontecer, após demostrar uma leve melhora depois do vômito jorrado contra a parede, sentou-se desajustadamente e começou a contar-me como tudo havia acontecido, retirou de seu bolso uma certeira absurdamente amassada de marlboro vermelho e ofereceu-me um cigarro, em negativa agradeci e olhei para seus dedos calejados, depois de acender o cigarro perguntou ternamente:
Você quer que eu te conte minha história em prosa ou em versos?
Assustada, olhei-a e disse:
― Como for mais fácil!
"Como for mais fácil..." Acho que essa fora a pior resposta de toda minha vida, as mãos daquela moça gritavam que nada em sua vida fora fácil, e eu venho com essa maldita resposta! Entretanto ela apenas sorriu tristemente e disse:
― Então começarei pelo clichê começo.
Mas não fora clichê, ela começou em versos:

As as aves caem 
O mar se agita
A lua se esconde
O sol não brilha,

Sofro do que poetas sempre hão de sofrer,

Eu poderia continuar a história, mas a moça levantou-se e apenas disse: Fim!
Bem, se você não sabe do que ela sofre, experimente amar.

Com amor,

- roberta laíne.

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