Deixe suas roupas a cá, pendure-as ali, e leia de fato, o que tanto falo, que faltas me faltam, que verbos me embalam, eis os meus Poemas de Quarto... (Roberta Laíne)
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
Talvez eu não demore mais tanto
terça-feira, 7 de setembro de 2021
sábado, 4 de setembro de 2021
"Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste, viva"
Caro leitor, hei de emanar uma proposição mais que verdadeira: você irá morrer.
Há alguns anos, depois que me tornei uma colecionadora de perdas irreparáveis, parei de deixar as coisas para uma ocasião especial. Comecei a comer a pizza do final de semana em plena segunda-feira; passei a vestir a calça nova, que havia comprado para ocasiões específicas, na terça, para ir à padaria; comecei a comer a parte mais gostosa do bolo primeiro, não deixando nada de empolgante para o final. Depois que percebi que não somos para sempre, parei de guardar as coisas para um dia futuro. Resolvi cortar o meu cabelo da maneira mais diferente possível e comecei a testar mais possibilidades em mim, não deixando nada para o fim do semestre, da semana ou do dia. Perceber que vamos morrer não é o fim do mundo, e, sim, uma dádiva, imagina só ficar aqui, para sempre, nesse mundo caótico e cheio de injustiças? Deus nos livre! Bem, o que eu queria te dizer com tudo isso, além do fato de que somos instantes, é que está tudo bem sentir medo, inclusive, grande parte das coisas que faço é com medo, porém, o que você não pode é deixar de fazê-las, por que meu amigo, se há algo no mundo que eu posso te afirmar é: você vai morrer, então seja, apenas.
- Roberta Laíne.
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
Sentia que uma das maiores prerrogativas da vida era a capacidade de sentir, mesmo que dor, mesmo que tristeza, mesmo que angústia. Sorria e sabia, que sentir era a sua maior capacidade, mesmo que por vezes com o peito dilacerado, mesmo que por vezes (muitas) o outro não lhe compreendesse. Tinha certeza que sentir, mesmo que com dor, era a sua maior grandeza de ser, de viver, de ter a capacidade de degustar, depois da angústia, um floco de felicidade, e, por mínimo que fosse, valia a pena por uma vida inteira.
Roberta Laíne.
quarta-feira, 28 de julho de 2021
Antes de ontem, minha amiga que acabara de perder seu filho, estava olhando para o céu quando me fez a seguinte pergunta: "Roberta, você acha que ainda há luz para mim?". Seu questionamento ecoou em meu cérebro e ficou vibrando em todo o meu corpo, e, em questão de segundos, dei a ela uma resposta ao qual não me recordo na íntegra, mas que achei satisfatória. Logo em seguida, saí de sua casa e fui em direção a minha, coisa de 10 segundos, trazendo sua indagação comigo, que ficou vibrando em mim. Já no meu quarto, várias outras perguntas invadiram a minha cabeça, coisas do tipo: "Uma mãe acha a luz mesmo depois de perder um filho?", "Dá para encontrar luz nas lembranças, as quais jamais quereríamos que virassem momentos longínquos?", "Em que momento a luz aparece e dissipa a agonia?". Percebi que em todos os questionamentos a palavra luz se repetia e, de certa maneira, aquilo me inquietava... De repente, em uma fração de segundos, um feixe de luz entrou pela janela do meu quarto. Sobressaltada, cerrei os olhos e pus meu corpo em defesa, enquanto várias imagens começaram a aparecer entre a luz, tudo ficou tão claro que os meus olhos ficaram marejados, na tentativa de se acostumar com o fulgor. Foi nesse momento que um brilho cintilante começou a brotar do teto e escorria pelas paredes do meu quarto, em cada pedaço de luz eu via vários fragmentos do sorriso do filho de minha amiga. Pablo, seu filho, tinha um sorriso impressionante, cheio de dentes grandes e bonitos, que agora escorriam entre as minhas paredes, seguido de várias letras desordenadas que caíam como uma chuva de meteoros. Algumas palavras começaram a se formar das letras, e, a primeira delas foi "semente". Logo depois, a palavra "fé" surgia e brilhava. Em seguida, em uma questão de segundos, formou-se a palavra "esperança", e, por último, vinha brotando do teto a palavra "eternidade". Estas quatro palavras ficaram circulando em torno do sorriso de Pablo e dançavam um baile de letras pomposo e cheio de luz, parecia que faziam uma apresentação, que estavam em um espetáculo. Aos poucos, vi soltar letra por letra de cada uma das palavras, tomando todas uma única direção. Atônita, limpei os olhos e acreditei que o espetáculo havia chegado ao fim, quando, de repente, as letras começaram a voltar, num misto de confusão e exaltação, todas embaralhadas procurando um local para se fixarem, tipo quando abrem a porta de um espetáculo e as pessoas buscam os melhores assentos para assisti-lo. Foi aí que cada letra começou a se alocar em lugares exatos e ali permanecerem, algumas iam embora enquanto outras achavam seus devidos lugares e assim formaram frases, as quais escorriam pela parede do meu quarto. Fragmentos do seu sorriso apareciam, e a sensação que eu sentia era de estar em um daqueles dias em que o céu encontra-se extremamente limpo, com um sol radiante que nos toma de conta e enche-nos de energia, fazendo com que sintamos vontade de ir à praia. Uma frase cintilante se formou como resposta à primeira pergunta que surgiu na minha cabeça, e, nela, em letras garrafais, estava escrito: "A luz está em você, foi você quem o gerou". A segunda frase apareceu logo em seguida como um letreiro gigante e dizia: "Tudo foi real. Só há lembranças do que continuará a existir pela eternidade/Nada será apagado". E a última frase seguiu como uma manchete de jornal com o seguinte dizer: "Você é mais forte do que imagina"... Logo após, todas as palavras foram se embaralhando novamente e indo embora, uma imagem do sorriso de Pablo apareceu e inundou o meu quarto, clareando tudo como um relâmpago, tamanha sua luz. Suavemente, seu sorriso foi seguindo o mesmo percurso das palavras e indo embora, enquanto os meus olhos incrédulos acompanhavam o trajeto da luz que se esvaia pela janela do meu quarto. A única reação que tive foi apenas limpar as lágrimas e começar a escrever, com as mãos trêmulas eu redigia incessantemente em uma folha de papel A4 tudo o que vira, com a certeza de que aquele texto não era um Poema de Quarto qualquer, pois ele possuía um único destinatário: Francisca dos Santos Pinheiro da Cruz, sua mãe.
Com carinho,
Roberta Laíne, via Poemas de Quarto.