Farias, homem definido em tranquilidade, repetia seus dias em iguais.
De manhã, acordava sempre reflexivo, não tirava os pés da cama sem antes rezar no mínimo um Pai-Nosso, três Ave-Marias e uma Salve-Rainha, pois achava que se não o fizesse Deus iria castigá-lo, e como era por demais metódico não falhava em suas metas sempre iguais e diárias. Tomava café da manhã sempre no mesmo lugar da mesa, com a mesma xícara, colocando sempre uma medida exata: duas colheres de leite, uma de açúcar, e quatro dedos de café, girando cinco vezes no sentido horário, em uma espécie de oração. Enquanto tomava café, olhava pela janela e pensava em muitas coisas aleatórias. Ia de coisas miúdas, como mudar o vaso da planta assim que chegasse do trabalho, até seu caloroso discurso pelas classes minoritárias quando se tornasse presidente do Brasil; no final das contas, Farias terminava o dia sem realizar nenhuma das duas coisas, e seus devaneios matutinos sempre custavam-lhes atrasos. Fisicamente, Farias não era bonito nem feio, ele ficava entremeios; era, pois, bonito demais para ser feio e feio demais para ser bonito, então acabava não sendo nada, e talvez “nada” fosse uma palavra que o descrevesse, inclusive pensava isso nos momentos de solidão. Tinha um cachorro e um gato que amavam-no fielmente, aos quais se prontificavam a esperá-lo, todos os dias, a retornar do trabalhar. Após sua chegada, Farias almoçava sempre metodicamente, e dormia por duas ou três horas no período da tarde. Reto, nunca acordou para além do horário que traçava mentalmente, pois, se tinha algo que ele sabia fazer com maestria era cumprir regras. Ao acordar, pegava algo para ler, ficava se imaginando naquelas páginas amareladas dos livros que comprava, sempre que possível na versão de bolso, quando sobrava mês e acabava a miséria que recebia. Depois de se imaginar como o personagem principal de qualquer coisa que lia, voltava para a realidade e ía à padaria comprar os pães que lhes eram merenda da tarde. Se escrever sobre este homem já é mórbido, imagine quanto que deveria ser desgastante e mui chato viver sua vida? Foi por isso resolvi investigá-lo, pois muito me intriga essa figura demasiado normal, sobrava-lhe normalidade e isso não era comum... Como que alguém poderia viver tão tranquilamente esses dias repetidos? Deveria haver algo que lhe mantinha são, e tenho certeza que não era seu trabalho medíocre como professor do Ensino Médio, muito menos sua maneira ridícula de pôr a mesma medida de café todas as manhãs, de todos os dias, sem dá férias, recesso, nem feriados para falhar na droga daquela medida patética. Enfim, o que quer que seja, eu estava obstinada a descobrir o que matinha aquele homem vivo.
As iniciais do meu nome são A. F. S. C., tenho 14 anos e não adianta de nada você se espantar com a minha pouca idade, por isso nem vou tratar desse detalhe, o foco é a investigação desse homem peculiar, no qual me esbarrei e vi de perto, sua figura monótona e pacata. Quanta raiva senti! E para ficar bem clichê, derramei algo em sua camisa branca, muito ciente de que ele tinha umas sete daquelas, todas iguais, como tudo em sua vida. Essa não era a primeira vez que eu o invadia para testá-lo, para força-lo a falar, a transgredir, o que quer que seja da sua vida medíocre e estranha. Toda aquela sutileza em olhar as coisas e as pessoas, toda sua despreocupação e tranquilidade me agoniavam, sim, e eu estava completamente incomodada com a sua existência! Por mim, ou ele me diria todas as suas verdades e eu enfim desvendaria seus mistérios, ou poderia morrer e enterrar consigo seus malditos segredos. Mas eu não era alguém que desistia fácil, então eu tinha que continuar com sagacidade, e precisava manter a calma, do contrário, não iria tirar nada daquele ser absolutamente resoluto em seu silêncio. Ele não era meu professor, e eu também não estava apaixonada por ele, nada de contos de fadas, Farias só fazia parte de minha recém descoberta habilidade em desvendar mistérios.
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“Nolite te bastardes carborundorum”
Após escrever essa última frase, fechei o meu caderno e continuei a olhar à figura de Farias, enquanto ele dava sua aula. Eu estava feliz, pois havia acabado de escrever mais uma de minhas medíocres (es)histórias.
“Nolite te bastardes carborundorum”
Essa frase aparecia no título de um capítulo de um livro que ele lia, o qual parecia meio estranho, assim como sua indecente tranquilidade. Ao vê-lo serenamente lendo, eu me perguntava: O que forçava Farias a ser daquela maneira? Quem o mantinha cativo? Será que seus próprios pensamentos? Por que Farias nunca deixava a barba crescer e sempre cortava o cabelo com o mesmo corte ridículo? E sempre no intervalo de dois meses? Ele me consumia sem ao menos saber de mim, dos meus anseios, dos meus medos, e muito menos sem saber que se tornara meu objeto de estudo, minha mais nova investigação, mui meticulosa e profunda, eu o seguia fielmente, na busca de verdades.
O ano começou e aquela figura inofensiva tornou-se o meu professor, foi aí que resolvi mudar de estratégia e comecei a deixar, entre suas coisas, cartas anônimas. Minha intenção era despertar em Farias algum tipo de paixão, não que eu sentisse, mas quem sabe assim eu conseguiria arrancar algo dele. De início, eu apenas declarava meu amor e admiração pela sua figura pacata e serena (tudo forjado obviamente, pois aquelas eram suas características que eu mais odiava); porém, após algum tempo, decidi colocar no final da última carta um lugar estratégico, no qual ele deveria deixar sua correspondência como resposta, para oficialmente trocarmos cartas. Era um ótimo plano para eu invadi-lo ainda mais e descobrir tudo o que precisava de uma vez por todas, o único problema é que Farias nunca deixou uma carta como resposta, então parei de escrevê-las.
Na semana seguinte, Farias faltou a todas as suas aulas na escola, e é óbvio que fui a primeira a buscar por informações do que lhe havia acontecido. Então, ouvi da secretária que, devido aos problemas de saúde de sua mãe, ele teve que voltar para sua cidade natal, por isso decidiu sair da escola, mas que havia deixado uma professora que o substituiria. Aquelas palavras caíram como um balde de água fria em mim, aquele desalmado tinha ido embora covardemente sem ao menos me dizer as suas verdades… Fiquei absorta em pensamentos, e daquele momento em diante eu não conseguia mais prestar atenção em nada do que estava a minha volta, tudo o que eu pensava era em como iria continuar sem saber o que se sucederia na vida daquela enigmática figura. Resolvi ir para casa mais cedo, mas antes parei na igreja que ficava ali pertinho, sentei numa das sombras do jardim e fiquei observando monotonamente as pessoas entrarem e saírem. Foi nesse momento que mergulhei profundamente no meu fracasso, sentindo uma lágrima arranhar minhas bochechas, era a confirmação de que eu nunca mais iria descobrir nada sobre aquele homem, sobre aquela figura patética. Não havia mais mistérios, não havia o que descobrir, não havia mais verdades a serem ditas, e aquela tinha sido a primeira e única vez que eu havia amado alguém em toda minha vida.
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- Roberta Laíne.