Querido leitor, eu estou bem!
Por mais incrível que possa parecer, estou lidando bem com a retirada do lítio. A primeira semana foi realmente difícil, mas atualmente encontro-me estável. Eu só preciso me vigiar um pouco mais, pois percebi que, sem o medicamento, as minhas emoções estão relativamente mais fortes. Se estou triste, fico muito triste e chorosa. Se estou feliz, fico muito feliz e risonha. Isso é “engraçado”, né? Mas tudo bem, o mais importate é que está dando certo e que, mais na frente, tenho a esperança de que a dosagem do meu antidepressivo também seja diminuída. Todavida, não tenho pressa alguma, pois sei que tudo tem o seu devido tempo e eu esperarei.
Esses dias, retornei com o meu gastro e, dessa vez, decidi ir à consulta sozinha, pois queria experimentar um pouco mais de toda essa liberdade que tenho vivido. A experiência foi interessante. Cheguei, peguei minha senha e fiquei esperando. Logo em seguida, a ansiedade social bateu à porta do meu cérebro, convicta de que iria entrar. Olhei para ela de soslaio e disse: “Não! Por favor, hoje não, estou experimentando algo novo." Incrédula, ela ficou me rondando, esperando a hora que eu cedesse. Rapidamete, olhei às pessoas ao meu redor e disse a mim mesma: "Nada vai acontecer, eles também estão esperando. Você também precisa esperar. Você vai esperar".
Depois de fazer o meu cadastro, fui para uma outra sala de espera, no aguardo de ser chamada. Bem, eu sabia que iria demorar bastante, então comecei a ficar um pouco inquieta. A ansiedade social, que estava à espreita, já quase abrindo a porta e entrando, foi supreendida outra vez. Dei um pulo e decidi: "Bolo!". "É isso!". "Vou à padaria aqui próxima para comer uma fatia de bolo!", e assim fiz.
Lá, sozinha, enquanto comia a fatia me sentia triunfante. Foi o bolo mais gostoso que comi e ele nem estava gostoso. Não tinha recheio ou algo palatável, mas ele tinha gosto de liberdade. O bolo tinha gosto de primeiro lugar no pódio, com recheio de vitória.
Ao término, voltei à clínica e me encaminhei à sala de espera, para continuar aguardando a minha vez. Lá, em algum momento, comecei a conversar com uma das pessoas que também aguardava. Eu a conhecia “de vista” e começamos a falar sobre doenças, claro. Ela me contou o que havia passado devido a problemas no seu estômago e depois eu comecei a relatar sobre o que enfrentava com o meu intestino. A conversa não se prolongou muito, pois logo ela foi chamada.
Segundos depois, uma mulher que estava atrás de nós me cutucou e disse que havia ouvido a nossa conversa, e que estava ali porque sua filha também tinha sido diagnosticada com colite. Ela relatou que ainda não fazia um mês desde a primeira vez com o médico e o início do tratamento, mas que se encontravam ali novamente, pois sua filha contiava com crises muito fortes e ela conseguiu um encaixe para retornar com o médico.
Eu me virei para conversar com elas e contei um pouco de tudo o que passei antes e depois do meu diagnóstico. A moça, sua filha, estava ao lado, mas ela não falava muito, apenas assentia com a cabeça. E quando dei por mim, estava elencando uma série de coisas indispenssáveis sobre o tratamento, como a importância de se fazer os medicamentos direitinho; a dieta que o(a) nutricionista passou; beber bastante água; a importância de se fazer terapia para elaborar melhor essa nova condição; a prática de exercícios e, é claro, o poder da oração. Foi uma conversa muito divertida, eu fiz várias piadas e nós rimos bastante. Aproveitei também para dar forças a moça, pois sua mãe havia dito que ela só pensava em morte e que não iria conseguir vencer a doença. Coloquei-me como exemplo e disse que eu também achava a mesma coisa e que, inicialmente, o meu psicológico estava me matando muito mais rápido. Às vezes ela sorria timidamente, mas eu sentia como se um peso enorme saísse de dentro dela. Parecia que ela sorria esperança. Querido leitor, você também vê as pessoas sorrindo esperança?
Bem, conversa vai, conversa vem, eu não havia percebido a passagem do tempo e logo fui chamada. Antes de me levantar, a mulher pediu que, ao sair da consulta, eu desse o meu número à sua filha, para que pudéssemos marcar uma caminhada e eu incentivasse-a de alguma maneira. Ao sair do consultório, digitei o meu número em seu celular e saí me despedindo muito feliz, deixando claro que ela iria vencer e que tudo daria certo.
Ao chegar em casa, minha mãe e melhor amiga já haviam iniciado o terço que rezamos toda tarde. Bati à porta e pedi para que iniciássemos novamente. No momento dos nossos pedidos, eu comecei a narrar o que havia acontecido, foi quando me dei conta do quanto eu estava iluminada, por isso consegui iluminar aquela mulher e a sua filha. Essa luz... Você sabe, não é, querido leitor? Você também já experimentou dela? Você sabe que eu saí das trevas, não é mesmo? Você lembra? Se eu olho para trás, eu não me reconheço mais. Isso é incrível não é mesmo? As trevas, a luz, não reconhecer-se mais. Tomara que este texto apareça em sua tela todo iluminado.
Com carinho,
- Roberta Laíne.