segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Não morra antes de mim

Faz tempo que esse texto não sai da minha cabeça, fica arranhando minha alma, é como aquela gota que pinga na telha e depois na latinha de refrigerante que esquecemos de jogar no lixo, agora ela incomoda no inverno fazendo barulho com os pingos d'água. Esse texto me perturba, já acordei no meio da noite suada com a frase brilhando, como um anúncio de boutique: "não morra antes de mim" e hoje resolvi me livrar dessas palavras mal resolvidas, vomitadas a força. Essa frase é para você, especialmente você, a próxima pessoa que eu irei amar, não morra antes de mim, não, não morra. Se você vasculhar minha vida, vai encontrar a marca e origem dessa frase, na biblioteca da minha alma, na seção Cássia, tem tudo escrito, e a única coisa que tenho a dizer é que você não precisa me prometer nada, absolutamente nada além de que não vai morrer antes de mim, e sobre isso não há segredo, não há explicações maiores ou delongar, é somente isso, está tudo nessa frase, está perfeitamente amontoado nessas palavras, não morra, não morra antes de mim.

- Roberta Laíne.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

C

Somos extensos demais para caber em um livro... Contradigo: houve uma vez que eu coube em uma frase.
Somos extensos demais para caber em uma frase... Contradigo: houve uma vez que eu coube em uma palavra.
Somos extensos demais para caber em uma palavra... Contradigo: depois que você morreu eu coube no silêncio.

- Roberta Laíne.

domingo, 6 de outubro de 2019

Mesmo quando nada é dito é preciso parar e ouvir.

- Roberta Laíne.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

De todas as loucuras que eu já fiz em minha vida, escrever é a maior delas...

- roberta laíne.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

1 ano de Leia Mulheres Capanema


Hoje, no dia em que redijo essa carta, são 22 de agosto de 2019, já está no cair da noite, mas resolvi sentar e escrever um pouco do que tenho aqui dentro, é arriscado eu sei, esse movimento de dentro para fora, às vezes me é arriscado, mas eu precisava arriscar e dizer o que estou sentindo. Provavelmente, quando esse texto criar vida, que será o momento em que eu o compartilharei com vocês, irei tirá-lo de dentro da minha mochila, dizendo palavras como “Eu escrevi uma carta a vocês” e minhas mãos estarão agarradas  a ela, como quem abraça e diz: é singelo, é simples, mas é para vocês, foi eu quem fiz, com alma e coração. Esse texto entrará em vocês dizendo: “Hoje é o aniversário de um ano do Leia Mulheres Capanema, e é por isso que essas palavras existem”, e é assim, é dessa maneira, como muitas coisas em nossas vidas, as quais existem para entranhar em nós, e ficar tempo suficiente para dizermos: “É para sempre” e é assim que o Leia é, foi e será, será para sempre, da maneira mais romântica e melosa, e, talvez dramática, que você possa imaginar. É para sempre, pois teve um início, como a maioria tímido, querendo aceitação, precisando de atenção e espaço, as quais foram dados no dia 25 de agosto de 2018, quando saímos de casa para nos encontrarmos na praça Magalhães Barata e dialogar na nossa primeira roda, sobre o livro “Sejamos todos feministas” de Chimamanda Ngozi. Saímos da praça cheios e cheias de sonhos, de material documentada por meio de fotografias e palavras, tantas palavras, nos abraçamos, sorrimos, depois choramos, e ficamos nessa troca de sentimentos por meio das palavras, soltas ou embargadas, era tudo o que tínhamos e temos, palavras. No mês seguinte, eu não pude participar do encontro, mas disseram-me que a leitura de setembro, como o próprio nome do livro sinaliza, encheu o Leia de lágrimas, com “Olhos d’água” de Conceição Evaristo. Depois disso, em outubro, fomos até o jardim da Igreja Matriz e, numa grande roda, nos surpreendemos com Rupi Kaur, em “Outro jeitos de usar a boca”. Rupi conseguiu com poucas palavras incitar inúmeras em nós, se pudéssemos até hoje estaríamos nos reunindo para falar do eco desse livro. Mas novembro chegou, e fomos direto para o oriente médio, foi para aonde nos levou o HQ de Marjane Satrapi, “Persépolis”, ok, preciso parar a fluidez do texto só para dizer que esse é o meu livro favorito, sem risos. Em dezembro, quando o calendário Maia apontava para o desfecho do ano de 2018, o ano do Leia foi finalizado com “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus, nesse encontro eu não pude ir, mas o que eu ouvi e li sobre Maria de Jesus deu-me uma vontade profunda de estar, permanecer, ir, para aonde quer que eu esteja imaginando, dizendo ou sonhando. Chegamos em 2019, a leitura de janeiro ficou por conta de Heloísa Lara Campos da Costa, com “As mulheres e o poder na Amazônia”, eu nunca tinha entrado, em minha mísera existência, em um terreno tão fértil, tão precursor, tão denso e importantíssimo, asseguro, sem medo que, fora um dos livros que mais me trouxe conhecimento, conhecimento bruto e que, até hoje, estou lapidando. Fevereiro foi um mês, absurdamente especial, pois entramos no universo distópico de uma autora que, às vezes, duvido que seja de fato real tamanha sua grandiosidade, falo de Margaret Atwood, com “O conto da aia”, aqui, preciso parar o texto novamente e dizer, esse sim, foi o meu livro favorito, e agora você pode rir, pois eu perdi toda credibilidade dada minha oscilação em qual livro leva o título. Março foi a vez de “Mulheres que correm com os lobos” de Clarissa Pinkola, foi o primeiro mês que fui ao Leia sem ter lido a obra, a priori eu não queria ir, hoje agradeço ao universo por ter ido, tudo o que escutei e que a obra ecoou em mim, a partir da fala das meninas, ainda está em perfeita excitação, ainda posso sentir as palavras, a coisa toda que envolveu. Em abril conhecemos “O que é lugar de fala?” de Djamila Ribeiro, mais uma vez topei em uma porrada de conhecimento, e mesmo com bastante teoria, foi um dos livros que mais me fez humana, um pouco mais humana, demasiada humana, eu nem consigo pôr em palavras o quanto. Em maio colocamos na baila “Um útero é do tamanho de um punho” de Angélica Freitas, um dos livros mais engraçados, modernista, descontraído e genial, pondo-nos a pensar e repensar assuntos tabus antiquíssimos, com uma roupagem nova, uma linguagem contemporânea. Junho foi um mês que sinalizo como especial, pois foi de “Presos que menstruam” de Nana Queiroz, parando o texto só mais essa vez para dizer que esse sim, é o meu livro favorito! Eu devorei-o, sorri, chorei, fiquei inquieta, amargurada, feliz, deprimida, enfim, foi uma mistura de muitos sentimentos, toda vez que me lembro de “Presos que menstruam” agradeço ao universo por ter conhecido a obra, pela sorte de ler e poder compartilhá-la com pessoas incríveis. Estamos em julho, o livro é “Eu sou Malala” de Malala Yousafzai, e eu não sei muito bem o que falar, então prefiro dizer: obrigada, Malala. Bem, espero que você não esteja casada por estar lendo essa carta, já me aproximo do final, o mês é hoje, é esse, é o agora, é tudo o que temos nesse instante, o mês somos nós, aqui, em círculo nesse um ano, com “E se eu fosse pura” de Amara Moira, e a única coisa que me vem à cabeça, para encerrar esse texto, é dizer com muita certeza que nós do Leia também somos trans, todas aqui são trans, porque TRANSgredimos, TRANSmutamos, TRANSformamos. Somos trans porque temos a audácia de ler todo mês uma mulher diferente, o Leia é trans, porque TRANSborda. Feliz nós, feliz 1 ano de Leia Mulheres Capanema...

Disse a mediadora Roberta Laíne.

domingo, 18 de agosto de 2019

É um texto sobre as faltas que inventamos

Por que sempre falta? O ajuste no cabelo, o dinheiro no final do mês, os fios da sobrancelha que cresce e precisa tirar, a roupa amarrotada que deveríamos passar antes de sair, os quilos a menos pra entrar na calça da vitrine - no manequim, os olhos azuis da modelo da capa de revista, a paciência em ter que ir ao médico cuidar da saúde, o retoque de tinta na parede do quarto que infiltrou no inverno, aquela viagem que deveria ter feito antes de conhecê-lo, o mestrado que deveria ter cursado antes de ser mãe, as unhas grandes pra pintar de preto, a blusa cara que você experimentou, mas teve que deixar na loja, o guarda-chuva que preferiu deixar em casa por acreditar que era apenas uma nuvem passageira, o livro que ficou marcado na página 80, a mensagem que escrevi no bloco de notas e não tive coragem de enviar, a torneira que quebrou mês passado e agora pinga a todo momento, o sapato que não coube no pé, mas que você queria, a todo custo, levar, o beijo que você preferiu não dá para não se machucar futuramente, o cacto que você não tirou do sol e morreu na chuva, a senhora que você deixou ficar em pé na missa e depois voltou pra casa se sentindo mal, pois não cedeu o lugar, o lixo que você não pôs pra fora e o serviço de limpeza da cidade não levou, a paciência que faltou, para não ter avançado o sinal e levar uma multa do guarda de trânsito, o blues que nunca mais tocou, o seu João que morreu e parou de contar piadas sobre portugueses, o padeiro antigo que fazia pães deliciosos, o lado do brinco favorito que você perdeu na festa de ontem a noite, a tv que você esqueceu de desligar antes de dormir, o dinheiro que não deu pra pagar a conta de luz, os olhos da moça que passou por você e nunca mais você a viu, e o final desse poema, que vai faltar, porque por mais que eu finalize, vai faltar alguma vírgula ou reticências, alguém em algum lugar ou momento, acrescentaria algo, uma janela que faltou fechar antes da chuva, talvez, porque sobre nossas faltas, das reais as inventadas, elas são sempre infinitas.

- Roberta Laíne. 

sábado, 17 de agosto de 2019

Há uma necessidade insondável, dentro de mim, em estar contigo. Apesar de, mesmo que, em detrimento de, e é aí que fode minha cabeça, eu não sei o que vem/tem depois da vírgula, se você voltar e ler novamente, verá que só há repetição, tudo o que vem é parafraseamento, é tudo repetitivo do dito anteriormente, depois não há nada, nada vem depois da vírgula, e isso é perigoso, é perigoso não saber o que há depois de uma vírgula, e eu morro de medo do que possa ser, desse modo é melhor eu ir estacionando as palavras e deixar um ponto final, mesmo não resolvendo o problema da vírgula.

- Roberta Laíne.